
Diante dos últimos acontecimentos relacionados à corrupção no Brasil, a Associação de Professores propõe que todos reflitam sobre seu papel na sociedade, em especial os educadores, sugerindo a leitura do texto do jornalista Carlos Pereira.
O professor e a corrupção
Suje-se gordo diz o personagem Lopes, de Machado de Assis, criticando, com a ironia típica machadiana, a mania nacional de se envolver em pequenas e grandes tramóias, mania que, do século XIX para cá se tornou uma doença infectando toda a sociedade brasileira.
Caso a Polícia Federal fizesse hoje uma devassa em qualquer casa, qualquer apartamento, qualquer escritório, qualquer hospital, qualquer igreja, em resumo, qualquer domicílio, empresa ou instituição nacional, possivelmente encontraria motivos para um inquérito. Vai topar com, pelo menos, um DVD ou um CD pirata. Ou um programa clandestino de computador. Ou um livro copiado sem licença do autor.
Ou seja, o chamado cidadão comum, que sente gozo ao ver na TV um milionário algemado acusado de corrupção, ou critica os hábitos pouco republicanos da classe política, pratica os mesmos desvios, guardadas algumas duvidosas e devidas proporções. Também está praticando um crime, varia apenas o montante financeiro envolvido. Quem compra um DVD pirata de dois reais, ou copia eletronicamente o conteúdo de um livro é tão corrupto e causa tanto mal ao pais (15 mil pessoas já perderam o emprego este ano por causa do fechamento de locadoras de filmes ou lojas de discos em razão da pirataria), quanto o ladrão de milhões.
Do ano de 1970 até agora o Brasil viu-se às voltas com a média de seis escândalos envolvendo corrupção por ano. Foram 231 processos em uma das várias instâncias que apuram estas falcatruas: Congresso, delegacias, procuradorias, etc. A grande maioria envolvendo relações promíscuas entre o público e o privado.
Esta situação vem preocupando profundamente às empresas nacionais, aquelas que, como define Weber, são de capitalismo puro-sangue, que visam ao lucro buscado com a exploração racional, permanente e única dos recursos financeiros, de equipamentos e mão de obra. Ou seja: não buscam os proveitos que vêm do roubo e da corrupção.
O Instituto Ethos, entidade de cunho privado que tem como proposta o combate à corrupção nos negócios, já reuniu desde duas fundações, ano passado, cerca de 500 empresas nesta campanha. São instituições que incluem pesos pesados como a Shell, a Wal- Mart Brasil, Unimed e outros pesos não tão pesados assim, mas que têm sua presença social forte nas comunidades.
Este instituto calcula que a corrupção gira em torno de 380 bilhões de reais por ano. Este dinheiro vem ou vai para as drogas, licitações arranjadas, desvio de recursos, os DVDs piratas, as roupas de marcas pirateadas, os cigarros contrabandeados, etc. Segundo conclusões da CPI da Pirataria, o esquema da corrupção é interligado. O dinheiro da cópia de livros pirata vai para a mesma conta bancária que recebe o dinheiro do tráfico, que financia os caça-níqueis, o suborno de funcionários, a compra de sentenças, numa espiral perniciosa.
A preocupação dos empresários se justifica, pois, ao contrário do que acreditam os marxistas primários, o capitalismo precisa de relações éticas para prosperar, embora os marxistas entendidos tenham razão, ao defender a tese do pecado da mais-valia na origem de toda a riqueza. A acumulação capitalista se faz a partir do seqüestro do trabalho não pago.
Mas, a partir da mais-valia, a mãe de todas as espoliações, o sistema empresarial precisa de “estruturas racionais das leis e da administração, pois que o moderno capitalismo racional não necessita apenas dos meios técnicos de produção, mas também de um sistema legal calculável e de uma administração baseada em termos de regras formais” como afirma Max Weber no seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo.
E, em termos de administração pública, a corrupção é um veneno mortal, por desviar impostos, sabotar a eficiência, consumir recursos e atingir os conceitos dos homens públicos. E, ao ver o comportamento desonesto das suas lideranças, todo povo tende no mesmo sentido, pois as sociedades são o espelho de suas lideranças.
E, a esta altura, é hora de lembrarmos aos educadores a sua responsabilidade neste e noutros assuntos de interesse não só da coletividade no momento, mas do futuro do país.
Parafraseando um velho refrão, podemos dizer que ou o Brasil acaba com a corrupção, ou a corrupção acaba com o Brasil. E, é oportuno repetir aqui as palavras do mestre Moacir Gadotti que diz: “escolher a profissão de professor não é escolher uma profissão qualquer (...) sua profissão tem relação com as estruturas sociais, com a comunidade (...) deve se aproximar dos aspectos éticos, coletivos, comunicativos, comportamentais, emocionais (...) a competência do professor não se mede pela sua capacidade de ensinar - muito menos de lecionar - mas pelas possibilidades que constrói para que as pessoas possam aprender, conviver e viverem melhor”.
Portanto, estamos diante de uma situação concreta sobre a qual os professores podem agir e muito. Temos de ajudar a Nação brasileira a sacudir de si os parasitas da corrupção.
E, citando mais uma vez Gadotti “(...) o professor é muito mais um mediador do conhecimento, diante do aluno que é o sujeito de sua própria formação (...). Ser professor hoje é viver intensamente o tempo, com consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar um futuro para a humanidade sem educadores. Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas (...) eles são os verdadeiros ‘amantes da sabedoria’ de que nos falava Sócrates. Eles fazem fluir o saber (...) porque constroem o sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam juntos um mundo mais justo, mais produtivo e mais saudável para todos. Por isso eles são imprescindíveis”.